Victor Requião

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sexta-feira, 9 de março de 2007

Contos interditos - Parte 12

Unidade

Apesar dos caminhos novos que as pessoas tem levado no decorrer dos anos de modernidade, sentimentos antigos ainda continuam a permear o ar que elas respiram. Nos bastidores do cotidiano, universos paralelos dentro de todas as vidas tomam forma e liberam suas forças. É a verdade adjacente nas energias que os sentidos percebem debilmente, sendo decodificados os sinais vindos dessas sensações tão naturais quanto o próprio vento. As chamas que sobem aos céus refletem todo esse lado que poucos conhecem, daqueles que lidam com a terra em essência deixando-se levar pelas brincadeiras do fogo. Rodeando as pedras que tomam formas próprias entoam certas melodias ao vento que as levam e as mantem em local divino. Sentem a presença da força mãe que os guia em completo desprendimento dos erros por eles cometidos, sabendo que o acerto será a transmutação desses erros através do calor que brota de si mesma.

Na visão do pensamento consigo ver tudo aquilo, e assim me entregar a todas as fagulhas que ao fogo dançam sob a luz da lua e somente naquele universo brilham, apesar de a grande maioria das pessoas só lhes perceber a forma. Assim pode-se ver do alto a mistura entre esses dois grandes universos humanos, a divindade daquele que permeia todos os atos de vontade e o outro que colhe os seus efeitos sem perceber. Os seres que pertencem ao primeiro são os responsáveis pela beleza de todas as coisas, pois é através deles que a roda das mudanças pode continuar o seu movimento incessante quando esses se unem e põem suas próprias sensações como força para que ela possa girar. O outro universo colhe os seus frutos, com um leve contentamento fluem as influências exaladas de tudo o que foi sentido e criado em completo êxtase no primeiro. Dessa forma são todos aqueles que caminham e não sentem os seus pés tocarem o chão, pois simplesmente percebem o passo e não a caminhada como a própria inspiração que os faz continuarem a seguir.

O sinal já se refletia como farol longínquo, de lugares distantes podem quase se misturar às estrelas de tom amarelado assim tornando notada a sintonia que entre eles já havia sido revivida por algo que estava além de todos os deuses. Isso tinha um caráter impossível de observar, mesmo se estando ciente que não é necessário qualquer entendimento para lidar com tudo aquilo. Apenas a vontade de entregar-se por completo a tal abstração importava e a consciência de ser alvo de certos efeitos, nem sempre tão fáceis de lidar, precisava estar desperta. Essa é a união pelo fogo, o poder metafísico que em um único momento pode juntar duas ou mais almas numa única fagulha e conduzí-la dentro de uma redoma de vidro morno, para que se possa assim maturar e ganhar o sabor perfeito para que ao sair da redoma purifique por completo as diversidades até então unidas numa só.

Era vital seguir o caminho se permitindo encarar os seus desvios, principalmente quando se poderia ver aquela pequena passagem que sempre convida para que se siga por ela. Tudo precisava ser completado mesmo que na sua extrema brevidade, a morte é diária e o nascimento se dá a cada instante que se levanta após um novo despertar. O inacabado maltrata aqueles que possuem o Sinal da Lua, nada mais os incomoda que a sensação de poderem fazer parte de algo que toma caminhos inpensados e os conduz simplesmente à contemplação dos sentidos. É tão forte tal sentimento que necessitam se isolar, ficarem silenciosos sem que o mundo os perceba durante esse tempo. Preferem ir em direção aos rochedos onde podem deitar, misturarem-se à terra não vendo a figura que seus corpos possuem, nem tampouco sentir o aroma que lhe possuem a pele despida. Ficarem lá e se banharem nus na chuva de tal intimidade, onde podem beber da mesma água que cai sem ao menos pergurarem-se o porquê de tudo aquilo. Sim, eles precisam disso como o ar que respiram, assim como precisam sentir novamente o que os conduz aos amores ininterruptos. Como num estado de destruição e contínua recriação dos universos em seu interior, tornam-se singulares e diferentes daqueles que conseguem se isolar na multidão e apenas indiretamente receberem as forças do universo criador.

Subjulgar a razão pelos encantos verdadeios de Eros, que arranca as limitações da existência e, neste estado de transtorno por uma força divina, faz tudo experimentar a mais alta sensação de desprendimento. Assim sente o camponês que avista uma bela montanha de longe e sente-se encantado pelas belezas naturais que dela emana, nesse momento ele é Agape e permite-se completamente envolver pelo sentimento de unidade com tudo aquilo à sua frente. Aí percebe-se como rei que não precisa de reinado, pois Eros o mantém vivo e alerta para o feminino e o masculino daquela visão maior que é clara quando ele adentra sem receios a atmosfera que a cerca.


Lídia ouvia música completamente despida sobre a cama, os olhos semi cerrados a faziam sentir como se entrasse na melodia que inundava o seu quarto num tom delicadamente místico. Suas mãos abertas apenas sentiam um pouco a pulsação do sangue a correr pelo seu corpo, oxigenando todas as partes numa tentativa incessante de sempre a manter presente no mundo repleto de sensações onde se permitia estar.


Vick por sua vez banhava-se no perfume de suas violetas, as mãos sujas de terra a faziam tão bem que sentia alegria ao poder olhar a forma engraçada que as pedrinhas tinham quando observadas com atenção de perto.


Por mais que tentasse, Hesse não conseguia dar forma a tudo que vinha ao seu pensamento. Então deixou a pintura no canto da janela para que secasse sem que o sol a visse. Enquanto lava as mãos sente-se tranquilo por mais uma vez a força se manifestar...


Dhrei está a cochilar em baixo da árvore nos fundos de sua casa, lá está deitado agora e alguns pássaros voam baixo conduzidos pela brisa do outono que já se faz presente.


Saboreava geléia de canela com goles de vinho enquanto lia uns versos que havia recebido a tempos atrás. Neles haviam rimas leves, que nem se faziam perceber por quem os escrevia. Eram de um tom de intimidade poética que pouco havia visto em outros versos, assim Tomas sentia-se consigo mesmo enquanto lia e saboreava o leve amor que o vinho fazia ao sorver o gosto de canela ainda presente em sua boca.

Comments
5 comments
Anônimo disse...

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
u-la-la!!!...relendo!!!!!
=D

Anônimo disse...

Hmm... tens futuro - "quiãozinho"!! uhauhauha..

Falando sério, tens um estilo "leve" em se escrever. Diria até que os teus contos são inspiradores... Pronto! estás aprovado!! :-)

Beijos, lindo!

Anônimo disse...

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas...

Caetano Veloso

Anônimo disse...

13!13!13!13!13!13!13!13!13!13!13!13!13!13!13!13!13!13!
13!13!13!13!13!13!13!13!13!
13!13!13!13!13!13!13!13!13!
13!13!13!13!13!13!13!13!13!

Beta disse...

Olá Quiãozinho,

P.S.: Achei muito fofo este apelido colocado num dos posts de seu blog e por isso resolvi replicá-lo. Mas não se apavore, pois não pretendo passar a te chamar assim, mesmo porque sabe-se lá o que a galera da fábrica iria pensar...rsrsrsrsrsrs...

Mais uma vez parabéns pelos seus contos! Adoro a forma como você escreve e é realmente muito bom ter a oportunidade de ler algo assim. Continue escrevendo!
Antes de falar propriamente sobre seus contos e sobre a análise que fiz de suas estórias gostaria de fazer algumas considerações: a primeira delas e a de que interpretei os personagens e suas estórias da maneira que eu as percebi e não da forma que você as pensou, portanto não fui nada objetiva. Um dos motivos reside no fato de que suas estórias são altamente subjetivas e dão margem a diversas interpretações tornando o trabalho de análise difícil e complexo, também talvez porque não conheça bem suas “motivações” para escreve-la. Daria para escrever um livro... Mas segundo nosso amigo Jung, “as idéias subjetivas são realmente as mais verdadeiras”, e partindo deste pressuposto, acho que estamos no caminho certo. Também não sou conhecedora da obra de Jung, só conheço o básico, e, portanto, não espere valiosa contribuição desta analise, mesmo porque é possível que você conheça mais Jung que eu.
Inicialmente pensei em analisar cada um dos seus personagens, mas depois achei que seria mais interessante falar da obra como um todo. Gostaria de iniciar meus comentários dizendo que gostei muito do fato de você ter dado atenção à questão dos sonhos, um tópico que, aliás, foi de fundamental importância na vida e obra de Jung. Foi a obra “A Interpretação dos Sonhos” que ligou Freud a Jung. Poucos pensadores se dedicaram a estudar os sonhos e muitos até desprezam o poder dos sonhos em nossas vidas. Por conhecidência ou não foi um sonho e suas divergentes interpretações o responsável pela cisão de Jung com Freud: o famoso sonho da viagem deles aos EUA.
Mudando de assunto, é muito interessante a tentativa de Jung de estabelecer algum tipo de equilíbrio entre o intelectual supervalorizado (leia-se ciência) e a imaginação proibida para este tipo de estudo, um dos motivos que levam Jung a ser chamado de místico. Vejo o mesmo nos seus contos quase que como uma tentativa, ainda que não consciente do resgate ao estilo e métodos de Jung, e esta é, com certeza, uma das riquezas presentes no que você escreveu em seus contos.
Como já citei, nem sempre entender o que você escreve é fácil, assim como também não é fácil entender a psique humana e muitas vezes podemos lidar com o “Contradicto in Adiecto”. À luz das idéias de Jung, poderíamos entender isso como nossa busca na tentativa de compreender a psique humana nos levando ao uso de “ferramentas” que muitas vezes parecem ambíguas e paradoxais, por vezes chocando-se frontalmente com o senso comum. Mas paradoxais e ambíguos são alguns aspectos de nossa natureza psíquica. E se nem a física moderna preocupa-se tanto assim com a lógica e objetividade, por que nós, amantes das ciências humanas deveríamos nos preocupar? Na verdade, em todo este contexto é preferível usar o termo reflexão. Refletir sobre o subjetivo é diferente de entender. Eu na verdade não entendo a psique, reflito sobre ela, assim como sob uma outra lógica entendo que dois mais dois são quatro.
Em vários momentos de sua obra, Jung reafirma que há uma integridade indivisível, uma espécie de relação de incerteza entre o observador e o observado, que sempre o perturba pelo ato da observação. Nenhum modelo pode ser “livrado” das influências subjetivas do seu criador. Então para analisar o modelo faz-se necessário analisar o criador. Tipo com funções sentimento e sensação mais desenvolvidas, tem como características marcantes a obstinação, o perfeccionismo e a introversão, tornando-se difícil compreender seus sentimento e pontos de vista se estes não forem relatados verbal e explicitamente. Estas características são perceptíveis em sua obra e criam uma correlação óbvia entre a complexidade de compreende-los objetivamente.
Voltando a citar Jung e sua obra, este teve fortes influências do movimento romântico, que eu poderia também chamar de movimento dramático. Se eu pudesse usar uma palavra para definir o romântico ela seria “sofredor”. O sofredor, ou diria romântico, sofre do arquétipo da ânsia insaciável. Quando menino, Jung leu Fausto, de Goethe. Ele relatou que o caráter do personagem Fausto veio para ele a ser mais significativo que a estória de Jesus Cristo. Neste ponto Victor, sua obra se contrapõe com Jung. Seus personagens não sofrem, eles estão quase sempre envoltos em pensamentos e sensações maravilhosas. È claro que isso não tira a qualidade de sua obra, mas por alguns momentos me fez pensar sobre o cinza que está escondido por traz do cor de rosa e crer que sua obra tem muitas semelhanças com suas atitudes sentimentais e comportamentais, algumas delas descritas por um escritor chamado Schiller, e que influenciou Jung no desenvolvimento de sua teoria dos tipos psicológicos. Onde você escondeu a sombra?
Iniciando minhas considerações finais e plagiando Schelling, um filósofo alemão que teve forte influencia sobre as idéias de Jung, faço uma correlação, em termos humanos, de sua obra com o consciente/inconsciente, um tipo de atividade criativa do si mesmo do espírito. Nós como indivíduos não simplesmente recebemos um mundo criado. Ao contrário, cooperamos com a natureza na atividade de cria-lo. Há uma troca, pois ele nos transforma assim como nós o transformamos e isto está explicitado em sua obra e nos seus personagens.
Por fim, espero que meus comentários estejam à altura de sua obra, e, por favor, não pare de escrever, mesmo porque sei que não sou a única que sentirá falta dos contos interditos, pois, de maneira que às vezes parece simples (mas só aparentemente), você nos faz pensar sobre as coisas mais “aparentemente banais” das nossas vidas e nos faz refletir sobre o quanto elas são importantes. Mais do que ler, eu pude sentir sua obra e me transportar por vezes para seus personagens com seus sentimentos, suas sensações, seus pensamentos, e porque não intuições...

Até os próximos escritos,
Beijos,
Roberta.

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